Cidade dos sinos guarda segredos que nem os mineiros conhecem

Explore as histórias ocultas, os sons que emocionam e os detalhes que fazem de São João del Rei um destino surpreendente e inesquecível em Minas Gerais

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
27/08/2025

São João del Rei, no Campo das Vertentes, a cerca de 185 km de Belo Horizonte, é muito mais do que um cenário barroco bem preservado. Por trás das fachadas coloniais e dos sinos que ecoam diariamente, existe uma cidade cheia de camadas históricas, tradições vivas e segredos guardados em cada esquina.

Conhecida como “cidade dos sinos”, não recebe esse título à toa. Aqui, eles não apenas marcam as horas: comunicam acontecimentos, anunciam procissões, revelam lutos e alegrias. É essa mistura de fé, cultura e memória que torna o destino tão especial, até mesmo para os próprios mineiros.

  • Centro histórico barroco preservado.

  • Tradição dos sinos que comunicam a cidade.

  • Música sacra e popular que ecoa nas igrejas.

Os sinos que falam: patrimônio imaterial vivo

Uma das marcas mais únicas de São João del Rei é a linguagem dos sinos. Tocados manualmente, seguem um código transmitido de geração em geração entre sineiros. Cada repique tem um significado: há um toque para festas, outro para funerais, outro para anunciar procissões específicas.

Essa prática, ainda preservada em igrejas como a de São Francisco de Assis, representa não apenas um patrimônio imaterial raro, mas também uma forma de comunicação comunitária que resiste em plena era digital. Os sinos se tornaram guardiões da história sonora da cidade.

Segredos esculpidos em pedra, ouro e silêncio

O centro histórico é a face mais conhecida da cidade, mas seus detalhes merecem atenção. Igrejas como a Catedral Basílica do Pilar e a Capela de Nossa Senhora do Rosário guardam riquezas artísticas e identitárias, além de camadas profundas de história social e religiosa.

Ao entrar nesses templos, símbolos discretos, obras de arte sacra e estruturas centenárias revelam momentos de revoltas, celebrações e mudanças. Largos e becos completam o cenário: muitos foram palco de irmandades e procissões que moldaram a identidade local.

  • Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar.

  • Capela de Nossa Senhora do Rosário.

  • Igreja de São Francisco de Assis.

Como a música molda a alma de São João del Rei?

Desde o século XVIII, a cidade se destaca pela formação de músicos em bandas e orquestras. Eles tocam em festas religiosas, eventos populares e concertos abertos, mantendo viva uma tradição que mistura fé e arte. A música sacra, em especial, ocupa lugar central nas cerimônias da Semana Santa.

As igrejas ecoam marchas lentas e harmonias que transformam a fé em som. Muitas famílias locais participam das apresentações, mostrando que a cultura aqui não está nas vitrines, mas nos ensaios, nos corais e nas partituras amareladas passadas de geração em geração.

Distritos onde o tempo passa devagar

Os distritos do município oferecem uma experiência ainda mais íntima. Em São Sebastião da Vitória, cercado por morros e lavouras, a vida segue no ritmo da terra. No distrito de São Miguel do Cajuru, a fé se expressa em pequenas capelas e festas locais, onde o café compartilhado com vizinhos vale tanto quanto a celebração.

São territórios onde o turismo ganha outro significado: menos pressa, mais presença. O visitante atento encontra histórias, causos e receitas transmitidas olho no olho, sem pressa de acabar.

Gastronomia com sabor de memória

As quitandas de São João del Rei são parte da identidade local. Receitas antigas se mantêm vivas nas mesas de famílias e nas feiras da cidade: bolo de milho, broa de fubá, angu, costelinha e o tradicional frango com quiabo.

Os doces também são destaque. O figo em calda servido com queijo, a goiabada cascão em tacho de cobre e a cocada enrolada no papel de seda são heranças culinárias que encantam moradores e turistas.

  • Quitandas preservadas em receitas familiares.

  • Doces tradicionais como figo em calda e cocada.

  • Frango com quiabo como símbolo da mesa mineira.

Trens, trilhos e lembranças em movimento

A Maria Fumaça é o ícone turístico mais fotografado de São João del Rei. Ainda ativa, percorre o trajeto até Tiradentes, oferecendo um mergulho no passado com o apito nostálgico da locomotiva e a vista para serras e pastos mineiros.

Na estação, o Museu Ferroviário exibe peças históricas que ajudam a entender o papel da ferrovia. Trilhos e locomotivas não servem apenas ao transporte: são condutores de memória, ligando presente e passado de forma viva.

O que o visitante precisa saber antes de ir?

Os sinos comunicam missas, festas, funerais e celebrações religiosas, sendo mais intensos na Semana Santa. O acesso aos distritos nem sempre é regular por transporte público, portanto vale considerar excursões ou veículo próprio. A culinária típica pode ser provada em restaurantes familiares, quitandas e feiras.

São João del Rei é considerada segura para turistas, especialmente nas áreas históricas. Fora do calendário religioso, há concertos, ensaios de bandas e exposições. Vale também estender a viagem: distritos como São Sebastião da Vitória e cidades vizinhas, como Tiradentes, ampliam a experiência.

+ Leia também: Minas revela distritos históricos que viraram febre no turismo

Tradições que se renovam ao longo do ano

Além da Semana Santa, São João del Rei mantém um calendário repleto de manifestações culturais que atravessam gerações. Festas juninas animam bairros e distritos, a Folia de Reis colore as ruas com cantos e bandeiras, e concertos organizados por bandas locais dão ritmo às praças em diferentes épocas do ano. Essas celebrações mostram que a cidade não vive apenas de memória: ela se reinventa constantemente, sem abrir mão de suas raízes.

Um destino que fala, mesmo quando se cala

São João del Rei não é feita apenas de imagens: é feita de sons, silêncios e gestos. Seus segredos não estão escondidos por malícia, mas por humildade. A cidade não se impõe — se revela a quem caminha devagar, escuta com atenção e se deixa tocar.

Para quem deseja mais que um passeio, e sim um encontro com o que Minas tem de mais profundo, São João del Rei é um destino que permanece muito depois da visita.

Sobre o autor:

Igor Souza é criador do Olhares por Minas, fotógrafo e especialista em turismo mineiro. Viaja por cidades históricas, cachoeiras e vilarejos, buscando contar as histórias que Minas tem a oferecer. Saiba mais sobre o autor clicando aqui.

Igreja com torre e sino no estilo barroco na cidade historica de São João del Rei, em Minas Gerais
Igreja com torre e sino no estilo barroco na cidade historica de São João del Rei, em Minas Gerais

São João del Rei/MG - Foto: Igor Souza

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