O destino de Belo Horizonte que encanta turistas e moradores há décadas

Descubra a Lagoa da Pampulha, o coração cultural de Belo Horizonte. Um complexo arquitetônico único e Patrimônio da UNESCO que pulsa com vida e lazer

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
24/11/2025

Em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, existe um lugar onde o concreto ganhou curvas e a paisagem urbana se fundiu com a arte. Este destino, um vasto espelho d'água cercado por ícones arquitetônicos, não é apenas um cartão-postal, mas uma parte vibrante da identidade mineira. Falamos da Lagoa da Pampulha, um complexo que há décadas fascina quem o visita, seja no passeio diário ou na primeira descoberta.

  • A visão de Juscelino Kubitschek que transformou a região.

  • As obras-primas do modernismo assinadas por Oscar Niemeyer.

  • O reconhecimento mundial como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Como um projeto audacioso redefiniu a paisagem de Belo Horizonte?

Para entender a relevância da Lagoa da Pampulha, é preciso voltar aos anos 1940. Naquela época, o jovem e visionário prefeito Juscelino Kubitschek decidiu modernizar o norte da capital, uma área então pouco habitada. Ele não queria apenas uma lagoa artificial para controle de enchentes; ele sonhava com um centro de lazer e cultura que colocasse Belo Horizonte no mapa da vanguarda mundial.

A visão de JK era audaciosa e precisava de mentes igualmente arrojadas para executá-la. Ele imaginou um complexo que integrasse lazer, religião e arte de uma forma nunca vista no Brasil. Este impulso desenvolvimentista foi o laboratório para o que, anos mais tarde, culminaria na construção de Brasília, marcando o início de uma nova era na arquitetura nacional.

A gênese do Conjunto Moderno da Pampulha

Kubitschek reuniu o que hoje é considerado um verdadeiro "time dos sonhos" do modernismo brasileiro. Para a arquitetura, convocou um jovem Oscar Niemeyer. Ele encontrou ali o campo de provas ideal para experimentar a "curva livre e sensual" que se tornaria sua assinatura, inspirada, segundo ele, nas montanhas de Minas Gerais e nas formas da natureza.

Juntaram-se a Niemeyer o paisagista Roberto Burle Marx, responsável por criar jardins que dialogavam com as formas fluidas dos edifícios, e o pintor Cândido Portinari. A ideia não era apenas construir prédios isolados, mas criar uma "obra de arte total", onde arquitetura, paisagismo e artes plásticas fossem indissociáveis e integradas ao espelho d'água.

Igreja São Francisco de Assis: Por que ela foi tão controversa?

Talvez o maior ícone da Lagoa da Pampulha, a "Igrejinha" é a síntese da revolução estética proposta por Niemeyer em Belo Horizonte. Suas abóbadas parabólicas de concreto, que deveriam remeter às montanhas mineiras, chocaram as estruturas conservadoras da época. Inaugurada em 1943, a capela foi considerada radical demais pela Arquidiocese da capital.

A polêmica não estava apenas nas formas. Os painéis de Cândido Portinari, especialmente o externo retratando São Francisco como um protetor dos necessitados e o interno, na via-sacra, foram vistos como modernos em excesso. Por conta disso, a igreja foi recusada para o culto católico e permaneceu fechada por 17 anos, sendo finalmente consagrada apenas em 1959.

O Museu de Arte: O glamour do cassino que virou cultura

O edifício que hoje abriga o Museu de Arte da Pampulha (MAP) nasceu com outra vocação: o luxo e o entretenimento. Inaugurado em 1942, foi o primeiro grande cassino da cidade. Com seus salões espelhados, rampas suaves e os jardins de Burle Marx ao redor, o local era o epicentro da vida social e boêmia da elite mineira.

Essa era de glamour durou pouco. Em 1946, um decreto presidencial do General Dutra proibiu os jogos de azar em todo o território nacional. O cassino fechou suas portas e o prédio ficou sem uso por cerca de uma década. Em 1957, o espaço foi ressignificado e reaberto como o Museu de Arte da Pampulha, abrigando um acervo relevante de arte moderna e contemporânea.

O que esconde a charmosa Casa do Baile?

Projetada para ser um salão de dança popular e restaurante, a Casa do Baile é talvez a obra mais lírica do conjunto. Ela parece flutuar sobre uma ilha artificial, ligada à orla por uma pequena ponte de concreto. Sua marquise sinuosa, que contorna a construção e se projeta sobre a água, é um dos exemplos mais fotografados da liberdade criativa de Niemeyer.

Assim como o Cassino, teve uma vida curta em sua função original e acabou fechando. Após décadas de usos diversos e algum abandono, foi restaurada e hoje funciona como o Centro de Referência em Urbanismo, Arquitetura e Design. É um espaço dedicado a exposições e debates, mantendo viva a vocação vanguardista do local.

A Casa Kubitschek e a memória de uma era

Um pouco mais afastada do complexo principal, mas parte fundamental do projeto, está a Casa Kubitschek. Projetada por Niemeyer em 1943, ela serviu como residência de fim de semana para o então prefeito. A casa é um exemplo notável da arquitetura residencial modernista, com seu telhado em forma de "asa de borboleta" e a integração total com os jardins de Burle Marx.

Atualmente, a casa funciona como um museu que reconstitui o ambiente e o mobiliário dos anos 1940 e 1950. Visitar o local é como fazer uma viagem no tempo, entendendo o estilo de vida e as aspirações daquela geração. É um contraponto íntimo às grandes estruturas públicas do restante do complexo, oferecendo um olhar sobre a vida privada da época.

Por que a Lagoa da Pampulha é tão importante para os moradores?

Embora sua importância histórica seja imensa, o que realmente encanta na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais, é sua capacidade de se manter relevante no cotidiano da cidade. O complexo não é um monumento estático; é um espaço pulsante de vida, lazer e natureza em plena metrópole, um verdadeiro respiradouro urbano.

A orla é, possivelmente, a maior academia ao ar livre da capital. Diariamente, milhares de pessoas ocupam seus 18 quilômetros para correr, caminhar, patinar ou pedalar na ciclovia. É um ponto de encontro democrático, onde atletas de alta performance treinam ao lado de famílias que passeiam tranquilamente ao entardecer, desfrutando da paisagem.

Um oásis verde: Os parques da Pampulha

Para quem busca um contato mais direto com o verde ou lazer em família, o Parque Ecológico da Pampulha é uma excelente opção. Com 30 hectares de área verde, oferece pistas de caminhada, locais para piquenique e áreas de contemplação. É um espaço que convida à pausa, sendo muito procurado para descanso e atividades ao ar livre.

Dentro do parque, um destaque é o Memorial Minas-Japão. Construído em homenagem ao centenário da imigração japonesa, apresenta um belo jardim oriental com cerejeiras e um lago de carpas. É um ambiente que proporciona grande tranquilidade e contraste cultural, complementando a visita ao complexo modernista com uma atmosfera de reflexão.

Como a fauna local se tornou uma atração?

A Lagoa da Pampulha também é um ecossistema urbano que abriga uma fauna visível, que se tornou parte da identidade local. Os grupos de capivaras descansando nos gramados da orla já são uma cena comum. Elas encantam turistas e exigem atenção redobrada de motoristas e ciclistas, simbolizando a convivência entre a metrópole e a vida selvagem.

Além das capivaras, a lagoa abriga dezenas de jacarés-de-papo-amarelo, que ocasionalmente são vistos tomando sol nas margens. A presença desses animais, embora fascinante, também serve como um lembrete constante dos desafios ambientais da região, especialmente relacionados à qualidade da água, que passa por um longo processo de recuperação.

Quais gigantes esportivos cercam a lagoa?

A paisagem da Pampulha não é definida apenas pelas obras de Niemeyer; ela também é o lar de dois dos maiores ícones do esporte mineiro. O Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, domina o horizonte com sua estrutura monumental de concreto. Palco de grandes clássicos do futebol e de momentos históricos, o estádio oferece visitas guiadas ao seu interior e ao Museu Brasileiro do Futebol.

Ao seu lado, fica o Ginásio Mineirinho, outro gigante arquitetônico que sedia eventos esportivos, shows e grandes feiras. A presença desses dois equipamentos transforma a região em um complexo que une arquitetura, cultura e esporte. Em dias de jogos, a orla da lagoa ganha uma energia diferente, vibrando com o movimento dos torcedores.

O Reconhecimento como Patrimônio da Humanidade

Toda essa fusão de genialidade artística, inovação técnica e integração com a paisagem foi formalmente reconhecida em nível global. Em julho de 2016, o Conjunto Moderno da Pampulha recebeu o título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, uma chancela que confirmou sua relevância internacional e seu valor universal.

A UNESCO considerou a Pampulha uma "obra-prima do gênio criativo humano" e um marco na história da arquitetura. O comitê avaliou que o complexo influenciou o desenvolvimento da arquitetura no Brasil e em outros continentes, consolidando os princípios do movimento moderno de forma adaptada ao clima e à cultura local, um verdadeiro divisor de águas.

+ Leia também: As paisagens mineiras que já apareceram em novelas e você talvez não saiba

Um convite à curva

Visitar a Lagoa da Pampulha é mais do que riscar um ponto turístico da lista; é uma imersão em um momento decisivo da identidade cultural brasileira. É entender como a audácia de JK e a genialidade de Niemeyer, Burle Marx e Portinari moldaram não apenas concreto, mas o próprio horizonte de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais.

Seja em uma corrida matinal pela orla, em uma visita reflexiva ao MAP ou simplesmente admirando os azulejos da "Igrejinha", a Pampulha convida o visitante a desacelerar. Ela nos lembra que, mesmo na paisagem urbana, há espaço para a curva, para a arte e para a contemplação. Conhecer a Pampulha é testemunhar onde o futuro do Brasil moderno começou a ser desenhado.

Sobre o autor:

Igor Souza é criador do Olhares por Minas, fotógrafo e especialista em turismo mineiro. Viaja por cidades históricas, cachoeiras e vilarejos, buscando contar as histórias que Minas tem a oferecer. Saiba mais sobre o autor clicando aqui.

Lagoa da Pampulha com árvores e o mineirinho ao fundo, ponto turistico em Minas Gerais
Lagoa da Pampulha com árvores e o mineirinho ao fundo, ponto turistico em Minas Gerais

Pampulha/MG - Foto: Igor Souza

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