Onde tudo começou, pise no chão sagrado da primeira vila do ouro de Minas Gerais

Antes de Ouro Preto, existiu Sabará. Descubra a primeira vila do ouro, com suas igrejas de influência chinesa, o teatro mais antigo em funcionamento e o sabor único da jabuticaba.

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
03/03/2026

Se Ouro Preto é a joia da coroa mineira, Sabará é a pedra fundamental onde tudo começou. A apenas 20 km de Belo Horizonte, esta cidade não é apenas uma vizinha histórica; é a matriarca do estado. Enquanto Vila Rica ainda era mata fechada, o bandeirante Borba Gato já desbravava as margens do Rio das Velhas, fundando no final do século XVII o que viria a ser a Vila Real de Nossa Senhora da Conceição de Sabará.

O tesouro oriental escondido nas montanhas

Sabará guarda uma das curiosidades mais fascinantes do barroco brasileiro: a influência asiática. A Igreja de Nossa Senhora do Ó é pequena por fora, mas seu interior é uma explosão de ouro e "chinoiserie" (arte com traços chineses). Dizem que os artistas, influenciados pelas peças que vinham de Macau (colônia portuguesa na China), pintaram olhos puxados e traços orientais nos anjos e santos, algo raríssimo no Brasil.

Mas o acervo arquitetônico vai muito além. A cidade é um museu a céu aberto que narra a evolução da arte colonial em três atos distintos e imperdíveis:

  • Capela de Nossa Senhora do Ó: O exotismo oriental e a talha dourada que cobre cada milímetro da madeira.

  • Igreja de Nossa Senhora do Rosário: A famosa "igreja inacabada". A obra foi interrompida com a abolição da escravatura, deixando à mostra a impressionante estrutura de pedras que envolveria a capela original, criando um cenário de ruína poética único.

  • Igreja de Nossa Senhora do Carmo: A sofisticação do Rococó com obras legítimas do mestre Aleijadinho, incluindo púlpitos e o coro, mostrando o auge da arte mineira.

Vista lateral da igreja matriz de Sabará, ao final do dia com céu azul claro
Vista lateral da igreja matriz de Sabará, ao final do dia com céu azul claro

Vista lateral da Igreja Matriz de Sabará/MG - Foto: Igor Souza

Um palco onde imperadores aplaudiram

Enquanto o ouro financiava as igrejas, a elite cultural exigia entretenimento. Assim nasceu o Teatro Municipal de Sabará (antiga Casa da Ópera), o segundo mais antigo do Brasil ainda em atividade. Inaugurado em 1819, ele possui uma acústica perfeita e um formato de "ferradura" tipicamente italiano.

Imagine sentar nas mesmas frisas onde D. Pedro I e D. Pedro II assistiram a espetáculos. A estrutura interna, feita de madeira e bambu para propagar o som, é uma aula de engenharia acústica do século XIX. Além do teatro, a cultura da cidade vive em lendas e tradições que você precisa conferir:

  • Teatro Municipal: Visite o interior para ver a pintura do teto e sentir a atmosfera do século XIX.

  • Chafariz do Kaquende: A lenda diz que quem bebe dessa água sempre volta a Sabará.

  • Museu do Ouro: A antiga Casa de Intendência e Fundição, onde o imposto do "quinto" era cobrado com rigor.

Igreja Inacaba de Nossa Senhora do Rosário em Sabará em tijolo, Minas Gerais
Igreja Inacaba de Nossa Senhora do Rosário em Sabará em tijolo, Minas Gerais

Igreja Inacaba de Nossa Senhora do Rosário em Sabará/MG - Foto: Igor Souza

A terra da Jabuticaba e do Ora-pro-nóbis

Se a história alimenta o espírito, a gastronomia de Sabará cuida do corpo. A cidade é, indiscutivelmente, a capital mundial da jabuticaba. As árvores centenárias nos quintais não são apenas decoração; elas sustentam uma economia criativa que aproveita a fruta integralmente, da casca à polpa.

+ Leia também: A capital mais charmosa do país para quem ama boa comida e cultura

E não para por aí. Sabará também elevou o status do Ora-pro-nóbis, uma cactácea rica em proteínas que saiu das cercas vivas para os pratos gourmet. Visitar a cidade e não comer é um pecado maior do que não entrar nas igrejas. Prepare o paladar para estas iguarias exclusivas:

  • Derivados de Jabuticaba: Geleias, licores, vinhos artesanais e até molho de pimenta e linguiça feitos com a fruta.

  • Frango com Ora-pro-nóbis: O clássico mineiro que aqui ganha status de prato nobre, servido com angu e arroz.

  • Sorvete de Jabuticaba: A sobremesa obrigatória que colore a língua de roxo e refresca o passeio.

Visitar Sabará é entender a gênese de Minas Gerais. É um roteiro onde o luxo do ouro se encontra com o sabor da terra, tudo isso a um "pulo" da capital.

Chafariz com cor azul e branca em Sabará, bicicleta ao lado e muro de pedras atrás
Chafariz com cor azul e branca em Sabará, bicicleta ao lado e muro de pedras atrás

Chafariz de cor azul e branca em Sabará/MG - Foto: Igor Souza

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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